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12 de Dezembro de 2017

Para 50% dos brasileiros, mulher que aborta deve ser presa, diz pesquisa

67% da população, no entanto, apoia interrupção da gestação em caso de estupro.

Camila Vaz, Advogado
Publicado por Camila Vaz
há 7 dias

Cinco em cada dez participantes da pesquisa concordara que uma mulher que interrompe a gravidez deve ser presa - Arquivo

RIO — Na semana em que a Câmara dos Deputados deve concluir a votação da Proposta de Emenda Parlamentar (PEC) que, na prática, pode proibir totalmente o aborto no Brasil, uma pesquisa mostrou que 62% dos brasileiros não acham que deveria caber à muher a decisão sobre interromper a gravidez. A consulta, feita em pareceria entre o Instituto Patrícia Galvão e o Instituto Locomotiva, constatou que permanece no país o dilema entre o "direito à vida" do feto e a liberdade de escolha feminina, esta apoiada por apenas 26% dos entrevistados.

Ao longo da pesquisa, realizada em domicílios de 12 regiões metropolitanas do Brasil, foram ouvidas 1,6 mil pessoas de mais de 16 anos. Chama atenção a tendência popular de criminalizar o aborto. Cinco em cada dez participantes, que representariam metade da população, concordaram com a ideia de que uma mulher que interrompe a gravidez intencionalmente deve ir para a cadeia. Por outro lado, 38% são contra essa medida punitiva. E 12% não opinaram sobre o assunto.

Na visão de Jacinta Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão, o projeto de lei está na contramão da demanda social pela racionalização do processo e pela segurança das mulheres.

— Nós testamos em relação aos permissivos legais (em que a lei autoriza o aborto), e você vê que uma parcela importante da sociedade compreende a legalidade da interrupção da gravidez a depender das situações. Parte da população consegue racionalizar a partir da realidade. Mas a gente tem uma corrente conservadora que quer colocar até o debate do aborto na ilegalidade, quando, na verdade, é um problema sério de saúde pública — ressaltou a diretora, que estima a execução de 500 mil abortos inseguros por ano, conforme levantamos de especialistas dos direitos reprodutivos.

No Brasil, o aborto é autorizado por lei em caso de gravidez causada por estupro, risco de morte para a gestante ou quando o feto é anencéfalo. Em geral a população apoia a interrupção da gravidez nessas hipóteses. Segundo a pesquisa, 67% dos brasileiros são total ou parcialmente a favor do aborto em caso de estupro. E 61% apoiam a interrupção em caso de risco de morte para a mulher. Além disso, se houver diagnóstico de doença grave ou incurável do feto, metade dos brasileiros concorda com o aborto.

Em caso de gravidez não planejada, porém, 16% dos participantes são total ou parcialmente a favor do aborto, se a mulher assim decidir, mas 75% são contra. Na hipótese de a família não ter condições de criar o bebê, 67% defendem proibir o aborto, e 25% apoiam a possibilidade do procedimento. Meninas de até 14 anos dispostas a interromper a gravidez têm apoio de 37% e rejeição de 53% dos participantes.

Enquanto 13% dos entrevistados veem o aborto como "assunto de polícia", 77% classificaram o aborto como uma questão de saúde pública.

7% DIZEM QUE CHAMARIAM A POLÍCIA CONTRA AMIGA QUE ABORTOU

Apesar da proibição, o levantamento destacou que 45% dos brasileiros acima de 16 anos conhecem ao menos uma mulher que realizou um aborto. Quanto maior a escolaridade do entrevistado, maior a tendência de vê-lo favorável à escolha da mulher. Se descobrissem que uma amiga havia acabado de interromper a gravidez, 47% relataram que nada fariam — mas 7% ressaltaram que chamariam a polícia.

— Tem um aspecto da pesquisa que é inédito. Eu acompanho o tema pelos últimos 30 anos. Essa pergunta que "você conhece alguma mulher que fez aborto?, foi a primeira vez que se fez essa questão. Você vê que quase metade da população acima de 16 anos conhece. São 72 milhões de pessoas. Tem restrição de debate, é interdito, mas pessoalmente entendo que o resultado da pesquisa nos surpreendeu positivamente: apesar de ser assunto clandestino, esse tema é falado. As pessoas conhecem mulheres que fizeram aborto — ressaltou Jacira.

Para a diretora, o maior acesso à informação e a oportunidades de instrução permite que o indivíduo esteja a par das causas e consequências da interrupção da gravidez. Deste processo, decorre uma visão mais aberta, mais racional do procedimento, que é subnotificado em função do tabu e da criminalização.

Entre as mulheres, 51% delas frisaram que" jamais "fariam um aborto, enquanto 48% dos homens ouvidos afirmaram que" jamais "deixariam uma mulher abortar um feto deles.

Os institutos ouviram 1,6 mil pessoas entre 27 de outubro e 6 de novembro, em domicílios de mais de 12 regiões metropolitanas do Brasil. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/para-50-dos-brasileiros-mulher-que-aborta-deve-ser-presa-diz-pesquisa-22146558#ixzz50KFJpCML

1 Comentário

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Sei que não é uma piada, mas é impossível não sorrir do penúltimo parágrafo do texto, em que se afirma que 48% dos homens entrevistados "jamais" deixariam abortar um feto deles. Agora, pergunto-me onde estão esses homens na hora que nasce a criança? A responsabilidade independe da continuidade no relacionamento dos pais, mas a prática demonstra que o ser humano desconhece isso. Os dados são incompatíveis já que mais de cinco milhões de crianças são registradas no Brasil só com o nome da mãe. É punível o aborto da mulher mas o aborto paterno é aceito sem quaisquer questionamentos.

Outro aspecto que devemos levar em consideração é que nossas antepassadas (mães, avós, tias...) muito provavelmente já cometeram pelo menos alguma tentativa de aborto.

Falta conscientização acerca do controle de natalidade. Não adianta o ser humano se reproduzir como se isso fosse uma obrigação, enquanto essas crianças não possuem as menores condições de sobreviver dignamente. Falta escola, falta assistência, falta educação, falta inteligência, falta amor, falta afeto, falta tudo, só não falta a irresponsabilidade dos pais. É um circulo vicioso que aumenta a criminalidade e a pobreza.

Já cheguei a ouvir de uma pessoa que quanto mais filhos ela tivesse, maiores as chances de ter uma vida melhor, pois os filhos mais velhos a ajudariam a cuidar dos que fossem nascendo...

Punir o aborto não faz com que ele deixe de ser praticado. continuar lendo